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sábado, 28 de fevereiro de 2015

AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL




"Perks of Being a Wallflower", de Stephen Chbosky
Qual a história? É contada na voz de "Charlie", que escreve um monte de cartas para uma pessoa anônima narrando o seu dia a dia na escola, com os amigos, com a família, entre outras coisas.
E o filme? Ainda não se sabe muito, mas o elenco está recheado de gente que todas nós amamos: Emma Watson, Nina Dobrev e Logan Lerman. O filme chega às telonas em 2012.
Por que ler e assistir? É uma espécie de clássico entre os adolescentes americanos e britânicos.

Ao mesmo tempo engraçado e atordoante, o livro reúne as cartas de Charlie, um adolescente de quem pouco se sabe a não ser pelo que ele conta ao amigo nessas correspondências , que vive entre a apatia e o entusiasmo, tateando territórios inexplorados, encurralado entre o desejo de viver a própria vida e ao mesmo tempo fugir dela.
As dificuldades do ambiente escolar, muitas vezes ameaçador, as descobertas dos primeiros encontros amorosos, os dramas familiares, as festas alucinantes e a eterna vontade de se sentir "infinito" ao lado dos amigos são temas que enchem de alegria e angústia a cabeça do protagonista em fase de amadurecimento. Stephen Chbosky capta com emoção esse vaivém dos sentidos e dos sentimentos e constrói uma narrativa vigorosa costurada pelas cartas de Charlie endereçadas a um amigo que não se sabe se real ou imaginário.
Íntimas, hilariantes, às vezes devastadoras, as cartas mostram um jovem em confronto com a sua própria história presente e futura, ora como um personagem invisível à espreita por trás das cortinas, ora como o protagonista que tem que assumir seu papel no palco da vida. Um jovem que não se sabe quem é ou onde mora. Mas que poderia ser qualquer um, em qualquer lugar do mundo.


PARTE UM

25 de agosto de 1991
Querido amigo,
Estou escrevendo porque ela disse que você me ouviria e entenderia, e não tentou dormir com aquela pessoa naquela festa, embora pudesse ter feito isso. Por favor, não tente descobrir quem ela é, porque você poderá descobrir quem eu sou, e eu não gostaria que fizesse isso. Chamarei as pessoas por nomes diferentes ou darei um nome qualquer porque não quero que descubram quem sou eu. Não estou mandando um endereço para resposta pela mesma razão. E não há nada de ruim nisso. É sério.
Só preciso saber que existe alguém que ouve e entende, e não tenta dormir com as pessoas, mesmo que tenha oportunidade. Preciso saber que essas pessoas existem.
Acho que, de todas as pessoas, você entenderá, porque acho que você, entre todos os outros, está vivo e aprecia o que isso significa. Pelo menos eu espero que seja assim, porque os outros procuram por você em busca de força e amizade, e é tudo muito simples. Pelo menos foi o que eu soube.
Então, esta é a minha vida. E quero que você saiba que sou feliz e triste ao mesmo tempo, e ainda estou tentando entender como posso ser assim.
Tento pensar na minha família como um motivo para que eu seja desta forma, principalmente depois que meu amigo Michael não foi à escola em um dia na primavera passada e ouvimos a voz do Sr. Vaughn nos alto-falantes:
"Meninos e meninas, lamento informar que um de nossos alunos faleceu.
Faremos uma cerimônia em memória de Michael Dobson durante a assembleia desta sexta-feira."
Não sei como as notícias andam pela escola e por que em geral estão certas. Talvez tenha sido no refeitório. É difícil lembrar. Mas Dave, o dos óculos esquisitos, nos disse que Michael se matou. Sua mãe jogava bridge com uma das vizinhas e ouviu o tiro.
Não me lembro bem do que aconteceu depois disso, exceto que meu irmão chegou à sala do Sr. Vaughn na minha escola e me disse para parar de chorar. Depois, colocou o braço no meu ombro e me disse para tentar ser forte antes que papai chegasse. Nós fomos comer batatas fritas no McDonald's e ele me ensinou a jogar pinball. Chegou até a brincar que, por minha causa, ele tinha perdido uma tarde na escola e me perguntou se eu queria ajudá-lo a trabalhar em seu Camaro. Acho que fiquei muito confuso, porque ele nunca havia me levado para trabalhar em seu carro.
Nas sessões com o orientador educacional, pediram aos poucos de nós que realmente gostavam de Michael que dissessem algumas palavras. Acho que eles tinham medo de que alguns de nós tentassem se matar ou coisa parecida, porque pareciam muito tensos e um deles não parava de mexer na barba.
Bridget, que é louca, disse que às vezes, na hora dos comerciais da tevê, pensava em suicídio. Ela foi sincera e isso confundiu o orientador. Cari, que é legal com todo mundo, disse que se sentia muito triste, mas não se mataria porque é pecado.
O orientador dirigiu-se a todo o grupo e finalmente chegou a mim.
? O que você acha, Charlie?
O que havia de tão estranho nisso foi o fato de que eu nunca tinha visto este homem, porque ele era um "especialista" e sabia meu nome mesmo que eu não estivesse usando um crachá, como fazem nos eventos abertos ao público.
? Bom, acho que Michael era um cara legal e não entendi por que ele fez aquilo. Apesar de me sentir muito triste, acho que o que realmente me aborrece é não entender o que aconteceu.
Acabo de reler isso e não se parece com o modo como eu falo.
Especialmente naquela sala, porque eu ainda estava chorando. Não parei de chorar nem por um minuto.
O orientador disse que suspeitava que Michael tinha "problemas em casa" e achava que ele não tinha com quem conversar. Talvez ele se sentisse sozinho e por isso se matou.
Então comecei a gritar para o orientador que Michael podia ter conversado comigo. E comecei a chorar ainda mais. Ele tentou me acalmar dizendo que ele quis dizer um adulto como ele, ou um professor, ou um psicólogo. Mas não funcionou, e por fim meu irmão foi à escola em seu Camaro para me pegar.
Pelo resto do ano letivo, os professores me trataram de forma diferente e me deram notas melhores, apesar de eu não ter ficado mais inteligente. Para falar com franqueza, acho que eu os deixava nervosos.
O funeral de Michael foi estranho, porque o pai dele não chorou. E três meses depois ele deixou a mãe de Michael. Pelo menos foi o que Dave me disse no refeitório. Às vezes eu penso nisso. Imagino o que acontecia na casa de Michael na hora do jantar e dos programas de tevê. Michael não deixou nem um bilhete, ou pelo menos seus pais não deixaram ninguém ver um.
Talvez fossem "problemas em casa". Eu bem que gostaria de saber Assim eu sentiria a falta dele com mais clareza. A dor poderia fazer sentido.
Uma coisa que eu sei é que isso me faz perguntar se tenho "problemas em casa", mas parece que muita gente tem problemas muito piores do que os meus.
Por exemplo, quando o primeiro namorado da minha irmã começou a sair com outra garota e minha irmã chorou o fim de semana inteiro.
Meu pai disse que "há pessoas que passam por coisa muito pior".
Minha mãe ficou em silêncio. E acabou. Um mês depois, minha irmã conheceu outro cara e começou a ouvir música animada de novo. Meu pai continuou trabalhando. Minha mãe continuou varrendo. Meu irmão continuou consertando seu Camaro. Quer dizer, até que ele teve de ir para a faculdade no início do verão. Ia jogar futebol pela Penn State, mas precisou do verão para conseguir as notas certas para jogar futebol.
Não acho que alguém fosse o favorito na minha família. Nós somos três e eu sou o mais novo. Meu irmão é o mais velho. Ele é um jogador de futebol muito bom e adora seu carro. Minha irmã é muito bonita, e má com os garotos, e é a filha do meio. Eu tiro nota máxima direto agora, como minha irmã, e é por isso que eles me deixam em paz.
Minha mãe chora muito com os programas de tevê. Meu pai trabalha muito e é um homem honesto. Minha tia Helen costumava dizer que meu pai era orgulhoso demais para ter uma crise de meia-idade. Até agora não entendi o que ela quis dizer, porque ele acabou de fazer quarenta e nada mudou.
Minha tia Helen era a pessoa de quem eu mais gostava no mundo. Ela era irmã da minha mãe. Só tirava A quando estava na escola e costumava me dar livros para ler. Meu pai disse que os livros eram muito antigos para mim, mas eu gostava deles, então ele dava de ombros e me deixava ler.
Tia Helen morou com minha família nos últimos anos de sua vida porque às vezes aconteciam coisas muito ruins com ela. Ninguém me disse o que aconteceu na época, embora eu sempre quisesse saber. Quando eu tinha uns sete anos, parei de perguntar sobre isso, porque ficava perguntando sem parar, como as crianças sempre fazem, e tia Helen começava a chorar muito.
Foi quando meu pai me deu um tapa, dizendo: "Você está ferindo os sentimentos da tia Helen!" Eu não queria fazer isso, então parei. Tia Helen disse a meu pai para nunca mais bater em mim na frente dela, e meu pai disse que a casa era dele e ele fazia o que queria, e minha mãe ficou quieta, como meu irmão e minha irmã.
Não me lembro de muito mais do que isso porque comecei a chorar muito mesmo, e depois de algum tempo meu pai e minha mãe me levaram para o meu quarto. Foi só muito tempo depois que minha mãe bebeu uns copos de vinho branco e me disse o que tinha acontecido com a irmã dela.
Algumas pessoas passam por coisas muito piores do que as minhas. É verdade.
Acho que devo dormir agora. Está muito tarde. Não sei por que escrevo essas coisas para você ler. Estou escrevendo esta carta porque as aulas começam amanhã e estou com muito medo de ir.
Com amor,
Charlie
7 de setembro de 1991
Querido amigo,
Eu não gosto do colégio. O refeitório é chamado de "Centro de Nutrição", o que é estranho. Tem uma garota na minha turma de inglês avançado chamada Susan. No primeiro grau, era muito divertido ter a Susan por perto. Ela gostava de cinema, e seu irmão Frank gravou para ela uma fita com aquela música ótima que ela compartilhava conosco. Mas, durante o verão, ela tirou o aparelho dos dentes, ficou um pouco mais alta e mais bonita e os peitos cresceram. Agora ela age como uma idiota nos corredores, especialmente quando os garotos estão por ali. E eu acho isso chato, porque Susan não parece feliz. Para dizer a verdade, ela não gosta de reconhecer que é da minha turma de inglês avançado, e não gosta de dizer "oi" para mim na entrada do colégio.
Quando estava na reunião do orientador educacional sobre o Michael, Susan falou que Michael uma vez disse a ela que ela era a garota mais bonita do mundo, com aparelho nos dentes e tudo. Então ela pediu para "namorar ele", o que seria ótimo em qualquer escola. Ele disse que ia "namorar" no segundo grau. E eles se beijaram e falaram de cinema, e ela sentiu terrivelmente a morte dele porque era seu melhor amigo.
É divertido, também, porque normalmente os meninos e meninas não eram bons amigos na minha escola. Mas Michael e Susan eram. Como entre mim e tia Helen. Opa, desculpe. "Entre tia Helen e mim." Foi uma coisa que aprendi esta semana. Isso e a fazer uma pontuação correta.
Fiquei em silêncio a maior parte do tempo, e só um garoto chamado Sean realmente pareceu perceber minha presença. Estava esperando por mim depois da aula de educação física e disse coisas muito infantis, tipo que ele iria me dar um "caldo", que é quando alguém enfia sua cabeça na privada e dá descarga para fazer seu cabelo redemoinhar. Ele parecia muito infeliz também, e eu disse isso a ele. Depois ele enlouqueceu e começou a bater em mim, e então fiz as coisas que meu irmão me ensinou. Meu irmão é um lutador muito bom.
"Bata nos joelhos, na garganta e nos olhos."
E foi o que eu fiz. E acabei machucando o Sean de verdade. E depois ele começou a chorar. Minha irmã teve de sair da sala dos veteranos e me levar para casa. Fui chamado na sala do Sr. Small, mas não fui suspenso nem nada porque um garoto disse ao Sr. Small a verdade sobre a briga.
"Foi o Sean que começou. Foi legítima defesa."
E foi mesmo. Eu não entendo por que o Sean queria bater em mim. Eu não fiz nada a ele. E sou muito pequeno. Mas acho que o Sean não sabia que eu sabia lutar. A verdade é que eu podia tê-lo machucado muito mais. E talvez tivesse feito. Acho que faria, se ele tivesse perseguido o garoto que disse a verdade ao Sr. Small, mas Sean nunca fez isso. Então, as coisas foram esquecidas.
Alguns garotos me olharam de uma forma estranha no corredor porque não decorei o segredo da minha fechadura, sou o cara que bateu no Sean e não consegui parar de chorar depois disso. Acho que sou muito sentimental.
Tenho estado muito só porque minha irmã está ocupada sendo a mais velha da família. Meu irmão está ocupado sendo um jogador de futebol na Penn State. Depois do treino no campo, o treinador disse que ele era reserva, mas quando aprendesse o sistema, seria titular.
Meu pai torce muito para que ele se profissionalize e jogue nos Steelers.
Minha mãe só está feliz por ele ter ido para a faculdade de graça, porque minha irmã não joga futebol e não haveria dinheiro bastante para mandar os dois para a universidade. É por isso que ela quer que eu dê duro na escola, porque assim consigo uma bolsa de estudos.
Então é isso o que estou fazendo até encontrar um amigo por aqui. Eu espero que o garoto que disse a verdade seja meu amigo, mas acho que ele só estava sendo um bom garoto contando tudo.

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